domingo, 29 de abril de 2012

contesta

Escrever é algo que sempre me salva. Sem parafrasear Lispector de maneira desleal. Não é que salva, mas ameniza. E tudo o que eu preciso é rezar. Poesia em forma de oração, ou o contrário? A poesia me livra da miséria humana e suas doenças. Protege minha alma frágil que, de tanto quebrar, acredito que tenha se tornado forte. Nessas desventuras de corpo e coração, eu quero o doce da paz. Da paz em si, sem esperar que ela venha em forma de homem algum. Porque a paz, quando nossa, ninguém tira. É como amuleto consagrado dentro da gente. Eu, estúpida de nascença, desconheço as diretrizes de uma vida calma. Na minha lentidão, só demonstro a minha vontade de ser. Até hoje busco a contesta das palavras que grito ao universo: em quantas partes uma alma pode se fragmentar e continuar inteira?

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Caminito!

Apesar de todo o medo sobre La Boca, El Caminito...não senti nenhuma vibração "saia correndo! assalto a vista". Me encantei absurdamente com o local. Tudo bem que não dá pra dar mole e ficar andando por lá de bobeira no começo da noite. Reza a lenda que até argentinos são assaltados por lá.
Fomos de trem de La Plata para Buenos Aires e pegamos um ônibus direto, que parava bem no Caminito. Acho que era o ônibus de número 53. Aliás, ônibus em Buenos Aires é bem barato, $1,25.
Como todo lugar turístico, parece que está estampado na nossa cabeça "oportunidade de ganhar dinheiro". Quando estava tirando foto de um bar, a tangueira olhou para mim e começou "quiere sacar una foto? viene acá!". Eu virei para os meus amigos e falei "vamos dar meia volta porque aposto que ela vai querer cobrar". E lá é bem assim mesmo. Escapamos dessa, mas outros dois nos pegaram. Ficavam fazendo poses de tango com a gente. O moço até me pegar no colo pegou! Disse que me daria $50 se ele me derrubasse (porque eu tava morrendo de medo disso acontecer). Enfim, eles pediram uma contribuição, a gente deu e a moça reclamou da quantia haha Eu fui bem clara "você não avisou que tinha que pagar". Quando a gente fala que é do Brasil todos pensam que somos ricos. Tadinhos! Sinceramente, acho praticamente TUDO aqui mais caro. Talvez para quem seja de São Paulo e Rio seja de boa.
Não adianta, quando se vai turistar tem que passar por alguns micos clássicos! É divertido.

Já tô com saudade de todas aquelas cores.












segunda-feira, 23 de abril de 2012

bestial

com a fúria de um cão raivoso, me lanço pelas ruas
com minhas dez estrelas tatuadas no peito.
parto para cima, com minha mandinga
de contas de cores.
crio asas.

como um ser bestial no acaso.

domingo, 22 de abril de 2012

Cola o meu retrato no teu e me namora?

Ele deixou seus afazeres de lado e correu. Correu como se treinasse maratona à anos, como se seu sedentarismo crônico e procrastinador nunca tivesse existido. Correu sem pensar em cifras e orgulho, sem lembrar das palavras ríspidas. Assim como a flor, ela deveria ser julgada pelas suas atitudes, e não por suas palavras. Ele correu. Esqueceu o mau humor, a febre, a cólera. Pegou três ônibus. Se esqueceu das bactérias, dos suores, dos nojos, da multidão. Não havia mais passagem. Contou à vendedora nossa história triste, a pausa dramática. Anunciou nos auto-falantes, questionou com a polícia, subornou o piloto (quando se trata do coração, todo jeitinho brasileiro é válido, sem pecado do lado de baixo do equador). Repousou. Escutou uma canção triste seguida de uma feliz - ela estaria lá. A saudade que transforma horas em anos. Essa palavra que só existe na língua de lá. Ele chegou. Pegou mais dois ônibus. Como o coletivo 214 não passava, como de costume, e na pressa de achar, resolveu saltar em frente à um táxi: "59 entre 23 y 24" falando um espanhol caduco. O taxista quis saber da sua história, o porquê de tanta pressa, "esse é o mal dos turistas". Ele, falando de amor. O taxista questionando sobre futebol. - olha só a enquete de hoje 'qual o melhor jogador da América: Neymar ou Ronaldinho?'. o melhor é o Messi. Ele, na ânsia de abraçar, desistiu de falar que o Messi jogava na Europa. 1424, é aqui. Toca o timbre, ninguém atende. Toca o timbre novamente. As sete da manhã. Uma figura sonolenta aparece cambaleando até a porta de vidro. Era ela, tinha que ser.
Pausa silenciosa.
O coração como um maracatu. O coração na boca. O coração que, lentamente, se acalma.

- Cola o meu retrato no teu e me namora?





- Sim.

sábado, 21 de abril de 2012

sobre a poesia

a poesia não resolve a vida
não sossega a alma.

ela corrompe.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Relatos de uma viagem - San Telmo

San Telmo é um bairro antigo de Buenos Aires com a sua famosa feira de antiguidades e vários restaurantes. Um desses restaurantes se chama La Brigada. Nunca fui, mas li que lá os garçons cortam a carne com colher de tão macia que ela é.

Esse passeio foi a minha primeira ida à Buenos Aires, e sozinha. Fui de trem de La Plata para lá, já que o trem é bem baratinho ($2,10). Diga-se de passagem: luxo ZERO. Como é a forma mais barata de se chegar à capital, o trem é cheio de gente e meio sujo. Aparecem vendedores de inúmeras coisas o tempo todo, como vendedor de faca, de alfajor, de empanadas, de milanesas, de cd's (com direito à um aparelho de som para você confirmar a qualidade do produto!) e até meia (comprei umas ótimas! 3 meias por $10).  Dentro do trem você realmente se sente fazendo intercâmbio, observando as disparidades sociais e culturais de um país tão grande.

Cheguei à Estación Constituición e pedi informações sobre como chegar à Feria de Antiguidades de San Telmo. Andei seis quadras seguindo a Avenida Brasil e perdi informação de novo. Qualquer dúvida é só recorrer ao google maps antes ( http://maps.google.com.br/maps?q=google%20maps&um=1&hl=pt-BR&biw=1366&bih=643&ie=UTF-8&sa=N&tab=il).

A feira é MUITO grande. Fiquei acabada. Sinceramente, espera mais. Não que eu não tenha gostado. Mas é que as pessoas sempre me falavam taaanto dessa feira que eu acabava por imaginar algo fora do comum. Mas é bem legal e vale a pena conferir. Tem telefones, máquinas fotográficas, vinis, bolsas, garrafas, roupas, colares, fotos e mais um tanto de coisa antigas. Tem pessoa dançando tango na rua e a língua, quase que oficial, é o português. SIM! Parecia até território brasileiro. A feira também segue vendendo bugigangas novas como alpargatas, blusas, lenços, um suco de laranja maravilhoso. A feira termina praticamente na Plaza de Mayo, onde "as mães e as avós de Maio" fazem suas manifestações por seus filhos e netos desaparecidos na Ditadura. A feira também conta com artistas de rua.














segunda-feira, 16 de abril de 2012

retrato

Eu, que abro meu coração de tempos em tempos, fui obrigada a me curvar, como se a maior das dores se abatesse sob meu corpo cheio e, ao mesmo tempo, frágil. Depois que se transcreve a alma em um lençol branco, jamais usado, a gente acaba por se sentir roubada. Como se publicassem as informações mais íntimas em um jornal barato. Transgredida. Violada. Algumas vezes acho que recuperar alma é tentativa sem retorno. Que o coração, uma vez partido, não se cola as partes. Que um porre e férias, são só desculpinhas de quem não conhece Caio Fernando Abreu. Algumas vezes também acredito que o amor é sempre possível e que o coração se renova para as desventuras seguintes. E por que não um felizes para sempre? Mas quando a idade com suas palmas calejadas dá leves tapinhas nas costas, eu me sinto como uma criança sonhando com o que não se pode ter. E talvez seja bem essa a verdade. Quando a gente sonha, não mede as distâncias que aproximam ou afastam o que se quer. O problema de ser calejada pela vida: a racionalização dos sonhos. De repente, me tornei adulta. Parafraseando Cecília Meireles, só que de uma maneira contrária, em que espelho ficou perdida a minha infância?


Retrato - Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?




domingo, 15 de abril de 2012

sintonia

sintonia é algo que não se mede ou conquista,
tem-se.
e quando achada, é como borboleta rara.
dos amigos, é como aconchego,
calmaria,
navio parado no cais.

das conversas,
a imensidão de horas.
as palavras exatas
no desassossego do espírito.

é encontro às escuras,
peixe assado
e horóscopo na madrugada.

poesia para o meu menino recuperar sua alma


procure nos lugares que passou
e, sobretudo, onde está
procure por entre papéis esquecidos na mesa
pequenas cartas de amor.

procure nos vãos das portas
nos corredores
nos arranha-céus
nas árvores floridas de primavera
no chão sépia e fatal do outono.

procure nas roupas usadas
naquele xadrez já desbotado.
procure nos seus antigos projetos
livros empoeirados.

procure naquela praça
naquele encontro de destino
naquela dança feliz
de música triste.

procure nos abraços que não deu
nos beijos que não esqueceu
no que há por vir
e ainda existe tempo:

dentro do tempo perdido
destroçado
recortado de lembranças

mas, acima de tudo,
dentro do tempo que é nosso

e de ninguém mais.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

A respeito, com despeito.

Engole a saliva. Respira. Rabisca algumas palavras desconexas no papel. Começa uma oração pedindo à Deus que o ajude a aceitar. Interrompe. Não sabe se está pronto para tal realização de prece. Desmitifica o passado. Passa à limpo. Pensa nas tolices que cometeu ao acreditar. Perde o foco. Pensa na felicidade das pequenas coisas, o abraço no momento preciso. As palavras de afeto. Afeição. Ainda têm. Engole a saliva novamente. Relembra as várias fantasias folhetinescas de cinco minutos atrás. As boas e as más. Desordena-se na lógica do seu coração. Os manuais, tão práticos, não resolveriam aquele caso. As horas de terapia, tão pouco. Afinal, tinha vergonha de expor seus desajustes emocionais acompanhados de soluços esparsos diante daquela figura independente, de frente ao divã.

Como uma entidade sádica, nem ao menos levou a escova de dentes. Ou o anel. Todo relicário era dele. Como se deixasse as lembranças afim de evitar futuras assombrações. Brilho eterno de uma mente sem lembranças, lembrou no momento. Talvez volte. Melhor pensar que não.

Não rompeu o silêncio. Como uma caixa que não se deve abrir, assim permaneceu. A passagem das horas jamais fizera efeito reverso naquele coração impassível e fechado. O dele. Que com seu sentimentalismo da lírica e dos olhos, escondia muros, figuras submersas. Talvez eu não seja tão aberto assim, falou em voz alta.

Os amigos, na tentativa de ajudar, pouco entendiam. Talvez algumas racionalizações de sentimentos. Mas, de fato, qualquer apoio já era o mundo inteiro. Na contradição do que se sente, a dúvida latente.

Nas entrelinhas do que supõe saber, prefere esquecer em um canto, debaixo do tapete - como aquela semana em que receberia visitas. Por bem ou mal, jamais falaria a respeito. Com despeito, encerraria a noite sozinho. Mais uma das que viriam, inevitavelmente. Sem jeito ou vontade, guardou a escova e o anel em uma caixa verde no armário. Por tempo indeterminado.

terça-feira, 10 de abril de 2012

sin

No quiero la mala suerte
de los destinados a la espera sin fecha
sin nada
sin nadie.

Yo quiero antes lo que se fue
un sueño

un aguero de primavera.

Quiero el regalo de una vida entera
la esperar.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

mais relatos - quilmes e yerba mate

Depois de dois meses na Argentina, tomando todo o cuidado com os taxistas, não é que um me passou a perna? Estava muuuito cansada depois do Quilmes Rock, uma espera interminável até o Retiro (rodoviária) e, depois, até La Plata. Nunca é demais alertar: aqui os taxistas tem mani de trocar sua nota por uma menor, ou devolver notas falsas. O golpe que passei foi o da troca das notas. O táxi ficou em $20. Eu tinha uma nota de $50 e uma de $2. Tirei a nota sem prestar muita atenção e entreguei ao taxista. Ele me disse que aquela nota era de $2. Então, fui pegar a de $50 que estava na minha carteira, já que eu havia dado a de $2 para ele. E não é que a outra nota também era de $2? Mas eu tava com tanto sono, que nem pensei estar levando um golpe ou então em reclamar. Por tanto, tomem cuidado! E briguem se isso acontecer.Quanto ao Quilmes Rock...foi muito bom, apesar de não vender cerveja. Sim, pasmem! A marca da cerveja é patrocinadora, mas só os artistas podiam beber. Eu não ia ao festival, mas a Paulinha me regalou uma entrada. Na metade do show do Arctic Monkeys começou uma chuva com vento frenética. Acabei por me esconder no estádio. Aliás, o Festival foi no Estádio river Plate. Por sorte, a chuva parou para o show do Foo Fighters. Foi lindo! E o primeiro show internacional que eu fui na vida. 





Como muita gente sabe, aqui o mate é igual o café no Brasil. Honestamente, me dou bem melhor com o mate. Na aula de Cine y Politica, um colega sempre leva mate e serve para alguns colegas. Na penúltima aula, o mate só não passou por mim e por mais duas pessoas (e uma das pessoas que não tinham tomado tinha cara de ser muito chata). Me senti A Excluída. Mas hoje o mate passou por mim várias vezes, fiquei parecendo uma criança de felicidade (internamente, né). Só que me bateu uma dúvida: eu não sabia se eu tinha que passar adiante. Então, toda vez que ele me passava, eu mesma tomava. Parece que o mate tem suas regras. Só sei de três: 1º) Só uma pessoa prepara o mate; 2º) Não se divide o mate, toma-se inteiro; 3º) Não se agradece à pessoa que fez o mate, se não ela vai entender que você não quer mais.

O meu mate fica bem ruim. Por isso, deixo por conta do Arthur e da Paula. Semana passada nos sentimos verdadeiros platenses: mate e Plaza Moreno.




domingo, 8 de abril de 2012

uma canção

nas brincadeiras tortas
desse mal me quer
me queira bem, meu bem
a vida é uma só.

nas encruzilhadas dessa estrada
em que, inevitavelmente, seguimos
há espaço
há espaço

me queira bem, meu bem
a vida é uma só

sem artifícios, façanhas já conhecidas
outra chance há de nascer
me reconquiste da maneira certa
e tudo volta ao seu lugar

me queira bem, meu bem
a vida é uma só.


c'est la vie

Ontem eu tive medo. Um medo incrível de dormir, desses de quem está sozinho em um quarto escuro, sem possibilidade de luz. Hoje, sonhei com quem já se foi. Mas, ao menos, tive a possibilidade de um último abraço, troca de palavras. Ele disse para eu acreditar em mim mesma. Mas, no final, pode ter sido apenas um sonho. Parafraseando Adélia, Deus me roubou a poesia. Os dedos correm pelas teclas, em busca de algum ritmo escondido no interior de cada palavra. Não consigo. No tarô, A Morte. Inevitável em seu ciclo de mudanças. Ás vezes penso que a jornada do Louco poderia ser mais fácil. C'est la vie, canta a música no rádio. Das obviedades eu quero o riso.

Em um dia de semana qualquer, ela conheceu o Senhor. E por dois anos eles viveram uma relação de amizade e irritação aos finais de semana pela manhã. Conversavam sobre tudo, coisas inimagináveis para uma reunião de pauta. E, em plena primavera, o Senhor, homem saudável e com vontade de vida, adoeceu. Sem poder ver suas pitangueiras floridas na Rua do Seminário Sem Número. Mas com o inevitável cheiro da papaya verde.

Foi em uma quinta-feira que as suas vidas seriam modificadas. Não a dela e do Senhor. Esse é o início de uma outra história. Que, ao contrário do Senhor, nasceu em plena Primavera. Foi nessa quinta-feira que a profecia da fita no pulso cumpriria seu desejo.

Esquizofrenia das palavras. Das lembranças eu quero a materialização. No desenrolar do medo, a escuridão visível é a que menos importa.






segunda-feira, 2 de abril de 2012

poesia para joão amar

a vida segue, lentamente,
seu movimento indecifrável
de coisa avassaladora.
das utopias do dia, eu quero a noite.

das dinastias, o sentimento
é de maior nobreza.

que no poço
vil

no fim do caos

você possa, enfim,
amar.
com desespero de criatura
faço no tear a minha história

com ternura, encerro a noite.
e amanheço o dia.
recupero a poesia perdida
no cansaço e na tristeza
na doença do dia-a-dia
na desesperança da noite
na escuridão em pleno dia.
o estalo da vida
me faz surpresa com o vento

nas entranhas de um corpo nu.
quando o caos precipita
e o escuro encobre meu vestido de sol
o inesperado surge à ponta:
e meu destino, retraçado,
esboça cores jamais imaginadas.

trem azul

nas profundezas de mim
sinto os sinais de outono.
e sinto medo.

com o sol rente a cabeça.

objeto

dos objetos (des)temidos do meu relicário
encontro foto sua já envelhecida
minha caixa de pandora.


nas descobertas de outrora,
tua face enigmática
me habita.

domingo, 1 de abril de 2012

Ela procurava um príncipe, ele procurava a próxima.

Com ele eu quero ter três filhos: Bento, João e Luiza. Quero correr mundo, navegar, sem perigo. Quero pôr a mesa, tomar um vinho, puxar a cadeira para uma conversa despretensiosa. Com ele eu quero conhecer a Argentina, Inglaterra, França, Colômbia, Uruguai, Itália. Andar de bicicleta entre as tulipas e os moinhos da Holanda. Quero desbravar a vida e encontrar a morte como um sopro na velhice. Quero dividir minhas ânsias. Discordar fielmente quando o assunto for literatura. E entrar de acordo quando se falar de amor. E sentir. Com ele quero tardes amenas, chocolate e flores. Quero um conto de fadas. Quero a realidade sem poesia. Quero transformar o tédio. Com ele eu quero meu riso bonito. Meu sono tranquilo. A respiração. Quero os beijos de novela. Com ele eu tive meu melhor abraço. Minha melhor quarta-feira a tarde. O melhor vinho. As piores discussões. O melhor amigo. Com ele eu esqueço dos perigos de um parque. Do tempo que passa. Dos compromissos de agora. Sem ele eu perco a fé. Eu esqueço a vontade. Me despedaço em mil pedaços que não se pode colar. Fujo da vida. Faço revoluções com protestos de uma pessoa só. Sem resultado. Sem ele eu faço poesia para chamar atenção. Cozinho o armário de um mês inteiro. Sinto medo. Tenho alergia. Com ou sem, quando acordo ou vou dormir, os pensamentos tem sempre a mesma direção. Com ele meu pé é sempre aquecido. Sem ele, o frio é aqui dentro de mim. E não há meia e cobertor que me abrigue da noite fria. Com ele eu descobri o amor. Descobri que preciso me amar, também. Que nem sempre as coisas são como gostaríamos que fosse ou como dizemos ser. Com ele eu aprendi a dançar no escuro. Cair de precipícios. Aprendi o significado de contar quinhentos e dezoito dias no calendário.