Encontrou em uma sacola plástica
vários envelopes e alguns papéis avulsos. Ao contrário do que havia pensado em
um primeiro instante, naquela sacola plástica não estavam contas de luz,
recibos de aluguel ou notas fiscais de algum produto, mas cartas que seu pai
havia recebido durante a juventude. A princípio ficou receosa se deveria
adentrar naquele universo íntimo que considerava a troca de palavras. Ou
melhor, invadir aquele universo. As palavras trocadas na narrativa das cartas são
tessituras de um fio tão visceral, que qualquer intromissão poderia ser considerada
uma violação da alma. “A tua alma é o mundo inteiro” foi o que encontrou
escrito em uma das cartas, esmaecida pelo tempo e pela vida. O verso ecoou em
sua cabeça por anos e foi a engrenagem fundamental na movimentação do seu corpo
pelos hemisférios e atrais. Viajou sete vezes pelo mundo e, em cada uma das
vezes, se emocionou com as paisagens novas e antigas. Conheceu
as diversas combinações de cor que somente o céu de maio poderia proporcionar.
Sentiu a textura de diversas formas de vida, como o aveludado das folhas
verdes, a aspereza do tronco de uma árvore, a maciez da crina de um cavalo. Sentiu escapar pelos seus dedos as águas de rios e cachoeiras. E guardou entre eles o salgado da água do mar. Cada uma de suas voltas se constituíam como uma tentativa de montar, como em um quebra cabeça, as peças soltas de sua alma. De fixar em seu corpo aquilo que é essencialmente libertário. A sensação de incompletude, de certa forma, a atormentava. E por não conseguir identificar o âmago de seu problema, resolveu buscar no mundo seus pedaços dispersos. Ao regressar à sua casa pela sétima vez, descobriu que não precisava viajar o mundo para encontrar a alma e a paz que julgava lhe faltar. Mas também descobriu que só poderia chegar a essa conclusão depois de conhecê-lo. Porque viajar é sempre para dentro.
sábado, 18 de abril de 2015
domingo, 12 de abril de 2015
Circularidade.
Entre os despropérios, "quiprocós" e outras palavras absurdas da vida-a-vida de cada dia que nos dão hoje, escolho o lado oposto, o esquerdo ao direito, a travessia à chegada, a narrativa ao discurso. Escolho o movimento inseguro à monotonia ditada. Porque é na escolha sobre meu corpo, mente e espírito que me construo.
Construção ininterrupta. Entre tombos e destroços, estamos todos ávidos. Estamos todos vivos. Ávidos de vida. Ou, ao menos, imensamente preocupados sobre ela, com ela e com o que fazer dela.
Quantas vezes se vive e se morre? Nessa e nas outras (vidas). No cotidiano. Na palavra áspera. No sorriso que conforta. Na angústia que não passa. No abraço que acalenta.
Muitas.
Sê como a fênix, como o mito. Que na circularidade da vida, renascem.
domingo, 5 de abril de 2015
O triângulo das águas ou O cais, o mar, a travessia.
O
triângulo das águas é sempre pertinente,
pensou naquele dia de chuva.
Todos
os livros e músicas que haviam lhe deixado insígnias transparentes, embora
doloridas, buscavam retratar as aflições humanas (demasiadamente humanas)
através de conexões possíveis entre o cais, o mar, a travessia.
A água
flui no movimento de um cálice a outro nas mãos da Temperança, o XIV Arcano de
um tarô há muito esquecido no fundo da gaveta, por medo ou por uma inabilidade
congênita com a manipulação dos símbolos. Talvez os dois. Essa é a
mesma água que rega e rege o fluxo da vida, concluiu em um momento de
epifania, entre goles largos da única bebida forte que lhe havia sobrado no
armário.
O
cais, o mar e a travessia. Resolveu se concentrar sobre essa conexão que, no
momento, era a sua maior urgência. Afinal, por mais poéticas que fossem - juntas
ou separadas - essas três palavras atravessavam a sua vida com uma
frequência esmagadora, e a bebiba havia ativado o modo "filosofia
de buteco" em seus monólogos interiores.
O
cais é o ponto fixo das chegadas e das despedidas. E pela sua natureza de margem,
é perpassado, transitado. Ali, ninguém fica. E de lá ele também não sai:
"invento o cais, invento mais que a solidão me dá", mas "pode
ser do vento vir contra o cais" eram as músicas que cantarolavam
desmedidas dentro dela.
Imortalizada
nos escritos de Guimarães Rosa, a travessia é o mais importante de todo
caminho. E não o ponto de chegada ou o ponto de partida. A travessia
também possui natureza de margem, mas de uma forma diferente. Enquanto o cais é
o ponto fixo e seguro, a zona de conforto, mesmo que momentaneamente, a
travessia é o movimento. Está à margem de tudo que não transita, de tudo que é
certo, que é seguro. A travessia, pensou, é o próprio corpo
no mundo - "minha casa não é minha e nem é meu este lugar".
O
mar, que invade os olhos e hipnotiza os sentidos cada vez que quebra nas pontas
de areia, nas pedras, nos pés. Manoel de Barros, assim como ela, criado,
absorvido e incorporado pelo mato, pela terra, pela fruta no pé e pelo pé no
barro, disse: "Por que deixam que um menino que é do mato/Amar o mar com
tanta violência?". Talvez seja mesmo o caso de apontar para a fé, e
re(A)mar.
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quinta-feira, 11 de setembro de 2014
para atravessar as frestas
a canção de fundo martelava na cabeça para ver se invadia a alma: sol de primavera abre as janelas do meu peito. e repetia, ininterrupta(-na-)mente.
mentia sobre suas disposições sobre a vida: o que queria dela e o que ela, a vida, parecia querer em troca. um escambo de intenções, privilégios, virtudes, moral, vícios, rancores, sessões de angustia comedidas. quase uma conversa inquietante em oficina de diabretes. mas a vida não é dessas coisas.
fiquemos com a conversa inquietante.
seu dia seguia na intranquilidade dos aflitos. olhava atordoado pelos cantos e quinas que frequentava. parecia não haver solução para o seu grande pequeno problema. gripe, vírus, dores nas costas - todas elas indiferentes e ínfimas em relação ao que lhe acontecia. a fome, as guerras civis, epidemias - tampouco.
seu olhar era direcionado pelo tamanho da sua generosidade: para baixo, não passava do umbigo; para cima, não ultrapassava o limite de seus olhos no espelho.
todavia, não iremos fazer aqui crítica de juízo. um pobre coitado, penso eu.
voltemos.
a despeito de seus caricatos defeitos, setembro fazia desabrochar um cadinho de ternura. e é por isso que ele cantava, para internalizar de fora pra dentro; para o sol atravessar suas frestas e atingir seu coração gélido e imóvel.
domingo, 27 de outubro de 2013
A poética na/da rua ou Os escritos das passagens.
Na influência do meu antigo
sempre quando é nunca
porque o passado não traz.
Estava inscrito num banco de uma das passagens. Lamentou não ter caneta para anotar. Assim, na falta, utilizou-se de seu sistema memorialístico capenga mediante todas as extensões: caneta, papel, gravador. Quem haveria escrito, questionou. E, mais: por quê? Lembrou-se da Regina cantando Belchior em um dos passeios de bicicleta. Era inevitável: os antigos sabiam das coisas. Seja roupa que não sirva, seja o que não se traz. O passado evoca, cá dentro. E se ressentir é re-sentir e, portanto, sentir de novo, nada se iguala à possibilidade (inexistente) de se ter efetivamente, de agir sobre mais uma vez. E, se tivesse, assim o seria? Melhor - faria?
Caminhou por outras passagens buscando registrar qualquer mínima inscrição. Intitularia: a poética na rua. Talvez das ruas, ou o escrito das passagens. Deixou para se ater no supérfluo depois (qualquer coisa seria segundo plano ou quase-sem-importância tendo como corpo as transgressões do tempo na vida, ou da vida transgredida no tempo)
Parou para descansar em um café com bandeiras de inúmeros países. Com lamento - mas um fundo de felicidade clandestina - pensou que nem todos, os vários de vários [países], poderiam traduzir as inscrições e, caso pudessem, talvez não o fariam de modo a compreender sua complexidade. Pediu o de costume e observou a vidraça, esperando o mais um dos tantos que encontrava e se envolvia e enjoava.
sábado, 5 de outubro de 2013
Ser é clandestino
Ser é clandestino, pensou. Depois chegou a conclusão que essa frase não poderia ser sua, devo ter ouvido em algum lugar. Tirou a água da chaleira e continuou seu ritual cotidiano. Mas a afirmativa, fosse sua ou de algum autor desconhecido, famoso que fosse, permanecia como um incessante martelar.
sábado, 31 de agosto de 2013
A caixa dos esquecimentos
Agosto
Agosto sempre fora o mês do
desassossego. Ele atravessava a vida das pessoas com um descomedido peso,
embora aparentasse leve brisa. Era possível sentir que, no fundo, todos
ansiavam as boas novas floridas de setembro. Em Sempre-viva, o cheiro de terra
era forte e o pó da estrada se levantava facilmente com o trânsito dos carros.
Era domingo, o dia anunciava e ardia, nos pequenos detalhes, que algo grande
iria acontecer. Valentina passeava pela cidade ansiosa pelo encontro que teria
com Vitório. Ele demorava a chegar mas ela - na tentativa de consolo e fomento
de esperança - falava repetidamente que era
o ônibus, só podia ser; ele deve ter quebrado na estrada, essas coisas
acontecem. Durante a tarde, o sol, que até então ardia de terra, foi se desvanecendo
e dando lugar às nuvens carregas de um azul acinzentado, que tomava conta do
amplo céu. A distância de Ypês à cidade de Sempre-viva era apenas de 47 minutos
– Valentina havia contado certa vez que foi encontrar Vitório na rodoviária. Já
haviam se passado três horas desde o momento que Vitório deveria ter saído de Ypês.
As nuvens carregadas de azul continuavam a ocupar o céu. O vento invadiu a
cidade, balançando fortemente todas as árvores da grande avenida. Valentina
olhava todo esse espetáculo da natureza com medo e excitação – era essa a sua
reação em meio a tempestades e à ruas desertas e escuras. As folhas caíam das
árvores, girando em uma violenta espiral até que pequenas pedras de gelo
começaram a cair. Elas partiam-se em dois, três pequenos pedaços ao irem de
encontro ao chão de paralelepípedos. Valentina se escondeu em uma pequena
garagem que estava aberta. Ela era pintada de um laranja desbotado, com alguns
sinais de infiltração em um dos cantos superiores. Havia, também, algumas teias
de aranha tecidas com o maior dos zelos. As pedras começaram a cair mais e
mais, e faziam grande estardalhaço naquela tarde vazia de agosto. De repente,
toda excitação foi convertida em medo, apenas. Um medo que parecia preencher
aquela garagem laranja, e até mesmo aquela enorme avenida. Ele não viria, ela
pressentia. Não viria. Valentina havia sonhado com essa possibilidade três
noites seguidas. No primeiro sonho, eles estavam em uma sala completamente
branca, que possuía como móveis apenas um sofá de três lugares, igualmente
branco. Valentina falava com Vitório, entretanto, ele parecia não escutar. Ela,
na tentativa de verter a atenção dele para o que ela dizia, foi com suas mãos
lívidas e frias até o rosto dele, de maneira que cada palma da mão atingisse as
faces do homem que estava imóvel a sua frente. Todavia, ela foi surpreendida
com a impossibilidade de concretizar sua ação: era como se Vitório estivesse
envolto por uma caixa de vidro. Acordou para a realidade com seus próprios
gritos produzidos no outro mundo. O segundo sonho foi um tanto cruel, também.
Valentina subia as escadas que davam no apartamento de Vitório. Ela estava
eufórica para contar a ele as novidades do seu dia: havia ganhado duas
passagens para o sul do país, e queria levá-lo como acompanhante. Já havia
planejado mentalmente toda a viagem, traçado inúmeros roteiros que agradassem a
ambos. Quando chegou à porta, percebeu que ela estava apenas encostada. Ao
entrar no apartamento viu que ele estava completamente vazio. Havia apenas, no
chão da sala, um bilhete que dizia assim fui
embora por não te amar. No terceiro sonho, ela estava em seu quarto vendo
um álbum de fotografias. Ele era de um verde musgo, com as pontas desgastadas,
mostrando o bege do material que o compunha. Valentina notou que o álbum, até
então completo, estava com alguns espaços vazios. Procurou uma foto dos dois,
para colocar no porta-retrato que havia comprado, mas já não havia foto alguma.
Sentada em um canto da garagem, recordou-se dos sonhos e começou a chorar.
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