sábado, 29 de dezembro de 2012

cantarolices - parte 2

O rádio à pilha toca uma canção antiga, quem vem pra beira do mar, ai, nunca mais quer voltar. Música de um tal de Dorival, o moço da rádio disse. Confesso que não conheço muito dessas coisas, dos timbres mesmo só quando vou ao Armazém. O Zé que tem ele à pilha, diz que hoje tem mais moderno, então eu acredito. Vó Naná que sabia das cantorias, e ensinava as outras lavadeiras a encantar riacho. As águas valsavam e boleravam, conforme a moda, em meio às espumas do sabão. Dizem que os seres de lá, em agradecimento, branqueavam a rouparia. E perfumavam. Eu é que não vou discordar. Mas o Dorival, aquele da música, é que tem razão. Um dia na vida inteira fiz viagem de trabalho que era na beira do mar. Vi maravilhado toda aquela maravilha, e chorei na primeira onda. Nunca é que vou me esquecer. Mas voltar eu tinha, e aqui estou. Ganhei de aniversário uma vez uma concha, e assim parte de mim vive lá, no choro da primeira. Para não cansar, só escuto uma vez ao ano, as vezes duas. Mas não adianta (e o Caymmi canta): Andei por andar, andei, e todo caminho deu no mar


cantarolices


Sentado no banco, fenecia e pensava: talvez lhe restasse algo escondido entre as gavetas do quarto, entre os buracos da parede, entre tantos sins e nãos em meio a um mísero talvez. 

Talvez. Naquela altura do sol e os dias acumulados em folhas de calendário e memórias, já não sabia se procurava ou conformava. Entretanto, as possibilidades não escapavam ao seu cérebro ainda ativo e cada linha que desenhava à caneta gerava mais perguntas do que saciava a vontade de escrever. Devia ser sina, dom, passatempo transformado em habitus.

Aquele anjo do Natal não fez a visita. Não o fez rever passado presente futuro, nem desvendar o mistério do planeta. Não o fez mudar, perdoar e mais uma quantidade de verbos decorrentes desse encontro repentino com a vida, em suas variadas perspectivas. Porque para mudar de rumo, precisava ao menos de uma ajuda. Vê-se que não era ateu.

Desapontado, resolveu ele mesmo fazer sua retrospectiva. Pegou na estante caixas de fotos e cartas, papel de cartas, contas, recibos, fitas, negativos. Examinou cada um como fonte primária da sua pesquisa sobre ele mesmo. Buscava o mal secreto.

Depois de muito pensar, re-sentir, repassar cenas já vividas – outras, inventadas –, com os olhos baixos, disse:

- “Eu nem lembro mais quem me deixou assim”.

E nenhuma lágrima daqueles olhos caiu.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

vez em hora
quando des-ritma o coração
naquele compasso
assim, sem traço
afago e voz
e ilusão.

bem vale mais enquanto dura
enquanto cabe
(ternura)

pelas esquinas,
desvãos.


qualquer meu canto torto
quando desenrola
poesia
uma suspeita, espreita -
vem tempestade por aí.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Com mate e afeto.

Eu poderia falar muitas coisas sobre fazer intercâmbio. Para agradar aos pais e familiares, assim como à instituição de ensino que me proporcionou (burocraticamente, que fique bem claro) fazer a chamada "mobilidade acadêmica", poderia falar sobre o capital cultural de Bourdie. Fazer uma análise sociológica dos cinco meses em contato com uma cultura diferente, bem como o mapeamento das minhas impressões e incorporações dos custumes alheios. Assim, falar dos aspectos da alteridade e coisa e tal.
Mas eu resolvi optar por outro caminho. Fazer intercâmbio, por mais que você pense, leia, imagine, será uma experiência totalmente diferente. Tá, pode parecer clichê falar assim porque toda experiência é diferente, mesmo quando é parecida (tem aquele ditado que as águas de um mesmo rio jamais serão as mesmas. os amantes da filosofia que me perdoem, mas estou com preguiça de procurar a citação. até porque, como já disse, optei por outro caminho: o do coração).

Apreendi olhando, andando, observando, conversando e enchendo linhas de gerundismos que me definem. Fazendo poesia, chorando de pijama no chuveiro, viajando sem dinheiro. Brigando no ônibus, me aventurando pela madrugada. Recebendo afeto e atenção de pessoas antes desconhecidas, talvez indiferentes. Praticando tarô e aprendendo a retrucar (porque não dá pra ser boazinha a vida toda).

Santo, um amigo venezuelano que conheci no meu primeiro dia de La Plata, marca  em uma nota no facebook as pessoas que ele conhece nesse mundão sebastião. nessa tal nota tem os seguintes dizeres:


"Salimos una vez de casa con un salvaje deseo de paralizar el tiempo, el tiempo paso y el reloj apretó el acelerador hasta el fondo, en esta tierra de extraños confeccionamos un lenguaje sin puntos ni comas pero con millones de signos interrogativos, en esta nueva lengua usamos muchas muletillas a las que la gente normal suele llamar abrazos y besos. Aprendimos a enamorarnos de lo ajeno y despreciar lo nuestro para luego empezar a dar la vida por lo que nos identifica.

Queridos hermanos somos la tribu de los de afuera, y ahora más que nunca cuando pasan los días y se nos acaba el tiempo nos aferramos a esta realidad con cierto sabor a cuento de hadas, no todos pudimos sentir igual en el paladar la desesperada textura del viento que aquí nos tragamos. Unos con más amargura y otros con más pena pero siempre excitante. Millones de versos me tomaría describirlos y no quiero hacer eso porque ya mis ojos cerrados saben retratarlos en mi memoria.

Queridos extraños que a bien supieron llegar a mi vida quería dedicarles alguna canción y es la que hacía el sonido de nuestras risas cuando embriagados de euforia nos recibía el día. Tan separados que fuimos que parecíamos un hilo entre esas charlas de recién recibida la mañana nos empeñábamos en hacer.

En estas mañanas me desperté pensando que inocentes fuimos al dejar correr los segundos, esos que se murieron sin recibir ni dar un abrazo, además fui sorprendido entre el resplandor de vernos enamorados de nosotros mismos, nunca antes vi algo así lo juro.

Había una vez unos desconocidos desenfrenados que querían llegar a algún lugar y llegaron a este. Hoy cuando ya muchos se fueron queda el amargo vino de un cuento de dios que rezaba “había una vez unos extraños que salieron de casa para detener el tiempo y solo se les detuvo el corazón cuando al regresar a ella dijeron adiós”.


Frases, expressões e afins que marcaram esses 5 meses:

- eu quero ser rica, eu quero ser rica, só fumar do bom e estourar na larica.

- y hoy voy hacerte olvidar, el pelo te soltaré. hare una historia con tu cuerpo (te necesito!) en tu mente plasmaré.




- cuanto sale?

- ai, acho tendência. me sinto fazendo intercâmbio.

- cara, eu vou pra Bolívia.

- quando eu te vi fechar a porta eu pensei em me atirar pela janela do oitavo andar, onde a dona maria mora, porque ela me adora e eu sempre posso entrar. era bem o tempo de você chegar no T, olhar no espelho o seu cabelo e falar com o seu zé. e me ver caindo em cima de você como uma bigorna cai em cima de um cartoon qualquer...


- pode avisar que eu não vou, ô ô ô ô, eu tôô na estrada. eu nunca sei da hora, eu nunca sei de nada.





- como escreve almohada?

- procura no google.

- me dá um cigarro, tuco?

- ralla feia do mal.

- para acalmar minhas crises de pânico


- já assistiu medianeras?

- bárbara, viver com você pode ser devastador na vida de uma pessoa.


6 meses em 6 fotos: (será que isso é possível?)


1.Fevereiro


Primeiro dia na casa nova, comendo tarta!


2.Março



Paulinha entrando na minha vida para sempre amém. Trâmites do visto e a Casa Rosada ao fundo.

3.Abril


Sebastian negando un besito en Caminito.

4.Maio



O que há de divino em mim saúda o que há de divino em você - Republica de los niños.

5.Junho


Congela o tempo pr'eu ficar devagarinho - Punta Lara.

6.Julho


Colônia del Sacramento.



Que fique bem claro como é difícil e injusto resumir meses em 6 fotos. Faltou tanta coisa, tanta paisagem, tanta gente!

Por fim, gostaria de agradecer profundamente aos meus queridos, da Calle 59 entre 23 y 24. Ana María entró en mi casa para hacer la visita legal, pero nosotros quedamos borrachos y ana María se sentió muy mal.

Los extraño, hecho de menos. Saudade.


Ps. Arthur, você me pediu um post motivador sobre a volta. Sabe, acho que não sei escrever sobre isso. Talvez porque nem precise disso. É questão de tempo e assimilação. A gente cresce por dentro, muda algumas velhas opiniões formadas sobre tudo (sobre o que é o amor, sobre o que eu nem sei quem sou), e etecéteras. Cada parte da vida tem seu lado, cabe a gente desfrutar.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Na esquizofrenia do seu dia, tudo estava intacto.

Em um dia normal, desses de calor e passarinhos voando alegremente como se não tivessem mais nada a fazer, ele, como sempre, acendeu seu cigarro. Com o olhar vago, repassou todos os seus afazeres: cigarro, café, café, cigarro, jornal, andar, praça, cigarro, cigarro, cigarro, café, cigarro, cigarro, cigarr, cigar, ciga, cig...É, a agenda estava completa. Não teria espaço para visitar sua família ou os amigos que havia perdido ao longo dos anos. Tornara-se um velho rabugento, dando-se conta do buraco em que estava caindo.
 
Para alguns, cair gradativamente, é um dos maiores prazeres. Para outros, uma desculpa para tomar Prozac. Para ele, acho que uma mistura dos dois - embora tenha parado com o Prozac devido à um impulso natural no qual, também, eliminou as carnes das suas principais refeições, levando-o, posteriormente, a não fazer praticamente nenhuma.
 
Depois dos primeiros cigarros e das xícaras de café, foi comprar o jornal em uma banca há três quadras da sua casa. Seu sedentarismo acumulado com os anos não permitia andar muito mais que aquilo. Ao lado, havia uma praça semi abandonada e, na outra ponta, uma padaria mequetrefe, na qual, após ler o jornal, iria para tomar um café morno e doce - talvez mais doce por não estar na temperatura adequada.
 
Sua cabeça manipulava as experiências do presente. A padaria do seu Jair era transformada por ele em um café portenho, onde poderia tomar um expresso e comer facturas deliciosas. Sua casa, de paredes descascadas, inúmeras goteiras nos períodos de chuva, bordas mofadas, era como o sonho de um esteta. Dedicado aos gostos refinados e à arte, não poderia ser diferente.
 
Na esquizofrenia do seu seu dia, tudo estava intacto. Exceto as ruinas do seu passado.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Quem sabe um dia, por descuido ou poesia.

Seu moleskine continha páginas inteiras rabiscadas com versos e tentativas de romance crônicas matinais contos: só que sem fim. A própria finalidade de um moleskine, e não de um caderno qualquer era tentativa de inspiração. Uma vez, lera no jornal, que essa era a opção de papel de desenhistas e escritores, devido a facilidade de uso e a fita que, embutida, marcava as páginas. Na prática percebeu que a inspiração não advém do meio.
 
Sentado em frente ao rio Sena - ou deveria ser o Sapucaí? - repassou mentalmente (e em algum momentos fazendo pequenas aberturas labiais de uma forma tão discreta que nem precisaria ser surdo mudo para compreender) todos os desaforos que escutou quando Noele saía de seu apartamento. De fracassado somado a ruim de cama. Acredito que para ferir a virilidade de um homem, não seria necessário mais nada. Mas, como esse relato se trata de um moleque, esses dizeres não foram tão avassaladores assim. Chorou lamentos piegas em algumas páginas e foi possuído por uma quase-coragem: Vou tentar uma última vez.
 
No saco de papel pardo, onde o velho do bar havia empacotado cigarros de sabor (ele, como um bom moleque, sustentava seu vício de pseudo artista apenas com aromas. o cheiro da nicotina misturada a 3.000 substâncias químicas lhe dava crise de pânico) resolveu escrever uma obra-prima para deixar Noele fragilizada e, quem sabe, fragilizada a ponto de dizer que tudo aquilo era mentira.
 
Entretanto, se aproveitando de que a menina não gostava de Chico Buarque, mas de sertanejos universitários, resolveu plagiar.
 
Mas fica, meu amor.
Quem sabe um dia
Por descuido ou poesia
Você goste de ficar.
 
E, é lógico, ela ficou.
 
 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Quem conta um conto aumenta um ponto e multiplica a vírgula.


Quem conta um conto aumenta um ponto.
Quem conta um ponto aumenta o conto.
 
E se eu não quiser dar continuidade a essa balela toda, como faz? Só o fato de eu me explicar, me contradizer, me abster, ficar calada - porque até mesmo o silêncio liberta pequenas palavras - já é uma desculpa para esse papel em branco se encher de pequenas formigas que vão, sorrateiramente, rabiscando, amontoando uma fileira de filhas. Se não se aumenta lá muitos pontos, as vírgulas estão garantidas.

domingo, 19 de agosto de 2012

Agosto

Agosto. Assim como o outono é uma estação mais do espírito que climática, agosto é mais o mês dos temores e dissabores que uma simples contagem do tempo que, apropriações à parte, segue seu ritmo imutável. Como uma boa crente nos assuntos do astral e das vibrações, ele nunca me passou despercebido - ou destemido. Pela primeira vez, independente do estresse pós independência ou da crise de abstinência intercambista, estamos seguindo equilibrados, o mês e eu. Como se tivéssemos feito um acordo onde ninguém fere ninguém além do que se julga justo. Tenho até medo de pronunciar esse acordo invisível e rompermos, assim, a trégua.
Fico pensando, que força é exercida sobre a gente nesses períodos tão marcantes, como o outono e Agosto, que os transformam, elevam seus significados de uma forma tão descomunal?
Mas tenho percebido...o mês já foi mais mal falado. Minha previsão, com o início, era composta por intermináveis frases de repúdio e medo atribuídos ao mês do cachorro louco, gritadas por anônimos que, ora citariam Caio Fernando Abreu, ora colocariam frases que Lispector jamais havia pronunciado sobre esses mês que nos dizeres, é impronunciável (harry potter feelings).
Sempre fui bem esperançosa com setembro. Não sei se pelas músicas, pela primavera, por ser o mês do meu aniversário. Mas, sinceramente, não sei o que esperar dele. Ano passado coloquei tantas expectativas nos seus dias que acabei frustrada. Nessa minha ignorância de quem não sabe ler os astros, aguardo setembro com a minha reza diária

Abre as janelas do meu peito.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Das interrogações

A canção que toca ao fundo não desvenda nosso destino. A unica coisa definida é a mudança contínua, troca de ciclos - ou o eterno retorno? Naquele livro, se dizia que a vida é como uma peça de teatro sem direito a ensaios. E, se pensar, toda essa nossa teatralização de (re)sentimentos, gestos e vontades, não é nada mais que a sua tese.

- Quantas vidas cabem em uma só? E quantas vezes se morre e volta a tornar-se completo ou, ao menos, vivo?

Das interrogações, quero a multiplicação - para não sucumbir ao tédio. Ou as respostas em pressentimento.

Em um dia torto de vertigem, pegarei a estrada com a naturalidade de quem abre os olhos. E olharei as coisas como quem renasce. E já não será vertigem, mas a involuntária vontade de ser o que almeja - liberdade. Mas que por excesso, não se torne preso, ou limitado pela solidão. Que da pedra bruta, que julgam inlapidável, se tire a canção e que a refaça e propague - pedra transformada em vento.

Que a música que pressinto nos dizeres seja o tempo
a claridade
e a eterna fênix vagueando no universo.


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

- Vamos brincar de louco? – perguntei ao Nada.


De quantas maneiras uma história pode se compor?

De infinitas, ora! Que pergunta mais fácil de se responder. É só juntar cada parte em cada outro, e formando peças e fragmentando-as. Assim, mistura o seu destino ao meu. A gente junta cada peça solta, separa algumas, vai se moldando. A gente é assim mesmo, é sempre o mesmo mas com partes re-combinadas.

- Quanto dura seu infinito?

Como se as pontas do universo se unissem, eu sou ele próprio.

Quando o tudo e o nada me dissolvem, voo solto por mundo desconhecidos. Em que parte da gente a memória se tatua?

Dessas perguntas distorcidas, me escondo no eco. Distraio. Naturalmente indeciso.

um dia, bem mais que dois.

um dia, bem mais que dois, quase uma vida inteira. nele eu retirei minhas cascas, estratégias, vidas por um fio. rompi meu novos tratados, reafirmei os velhos, me despedi. enquanto abraçava o novo, sem as cascas, sem as faces, sem as antigas vestes, mal pensei no que havia feito de mim.

quanto mais pés eu ando,
quando mais mundo e mais fome e mais canto
quase todo
para destruir o quê
em mesmo lugar.

eu calo o pranto
me acredito no que convém

- onde estão minhas cascas, perguntarão. por aí, talvez.
perdidas.

bem mais que o tempo, cadê meu vento?
para me tornar o lar.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

tempo de ternura?


o tempo que perdura nessa linha tênue, que se escassa e se respira, é meu tempo em sobremundo. quando te digo verdades em códigos, que se entenda a mentira e eu, assim, não serei descoberta. misturo as faces nesse meu tempo, enquanto resta ternura. que não serve e que não sirva, já que não modifica ou me refaz. encontro entre os dentes, no desrespeito inequívoco de, assim, machucar. no rádio a canção tenta amenizar o que não desfalece. você me aplaude, o tempo e suas marcas. como o inevitável, o frio, o condizente suspiro - e o grito de não. em quantos planos, ares, planetas incontáveis será preciso andar, respirar, conhecer, para que a resposta seja o avesso?

quarta-feira, 30 de maio de 2012

relatos de uma viagem - punta lara e reflexões

Sempre existe aquela pergunta "E o intercâmbio? Como está a Argentina? Aproveite, é uma oportunidade única, maravilhosa". Sim, ter essa oportunidade é algo incrível, estupidamente maravilhosa. Não só pelo crescimento acadêmico que, para mim, é na verdade a menor das maravilhas. Aprender a seguir a vida com as próprias pernas, longe das pessoas que você ama, controlando seu dinheiro que é pouco em um país super inflacionando, aprendendo, depois de 4 anos em uma cidade, a construir novas amizades e desejos. Depois de muito tempo parado, a gente passa a nem perceber as coisas, de certa forma. Assim, a mudança é fundamental. O dinamismo da vida. Nessa viagem - que é sempre para dentro - aprender a ver de novo. Pode parecer apenas uma forma de poetizar as ações cotidianas, mas não...Sempre ando nas ruas embasbacada com a beleza das folhas amarelas que caem no chão e imagino que aquilo é uma dança da natureza. Não é novidade que o outono e o mês de maio são meus favoritos. Essa poesia da Adélia Prado define:


A salvação opera nos abismos.

Na estação indescritível,

o gênio mau da noite me forçava
com saudade e desgosto pelo mundo.
A relva estremecia
mas não era pra mim,
nem os pássaros da tarde.
Cães, crianças, ladridos,
despossuíam-me.
Então rezei: salva-me, Mãe de Deus,
antes do tentador com seus enganos.
A senhora está perdida?
Disse o menino,
é por aqui.
Voltei-me
e reconheci as pedras da manhã





Pasmem: até abracei uma árvore. O intercâmbio é maravilhoso pra gente parar e refletir sobre a própria vida, os rumos que tomamos, por onde nos esquivamos do caminho. É, nem tudo são fiestas internacionales. Que são muito legais, por sinal. Essas festas são bem diferentes das do Brasil (entenda-se: festas republicanas da UFOP). Argentinos mesmo, quase não conheci. Os intercambistas que são mais unidos e, nesse bloco, várias nacionalidades: brasileiros, franceses, mexicanos, venezuelanos, espanhóis, colombianos. E, quando se conversa, apesar da dificuldade e diferentes expressões, a gente acaba vendo que tá todo mundo na mesma, se re-inventando, sofrendo, pensando, experimentando, estudando, acoxambrando e sendo feliz.


No meu caso, muito mais que aprender questões curriculares, foi aprender sobre a vida. Desde o início sabia que seria dessas buscas em que se precisa morrer para nascer de novo. Como a fênix e suas inúmeras vidas. Sair da zona de conforto. Tentar tocar e admirar o bonito das coisas, das relações, e, também, ver a verdade de cada um. Muito longe do mundo ideal. Essa viagem para dentro e, ao mesmo tempo de espaço, me fez perder muitas coisas. Coisas que eu pensei que jamais pudesse viver sem. Mas o tempo mostra que a gente só perde para o novo venha. E, no final, não é nem perder a palavra exata. A gente perde momentos com os amigos que ficaram, almoços com a família, feijoada, carinho de pai e mãe e avó e tios e primos, brigas e risadas com o irmão. A gente perde aquele conselho da melhor amiga, aquelas horas de prosa fiada deitada no colchão. Até o namorado a gente perde. Mas, a gente também ganha muita coisa relacionada a tudo o que ficou. Porque os abraços, os carinhos, as prosa-fiadas estarão acumuladas pra quando a gente voltar. E, no coração, também vai ter a vontade de um novo amor. 

A saudade agora está ficando diferente. Antes, do Brasil. Mas...tenho apenas mais um mês de Argentina, praticamente. Como passou voando! A saudade agora se faz de onde está. E como vou sentir falta de tudo isso. Das ruas, das folhas, do frio, dos alfajores, de comidas que só encontro aqui, do sorvete maravilhoso, de morar com a Paula, o Arthur e o Sebastian. De pegar ônibus lotado e caminhar mais de 2 Km de volta para casa. De esperar o 214 B. Das praças, da arquitetura, do Guillermo achando que nós somos uma enciclopédia apenas por sermos historiadora e periodistas. Do 'castechaaaaano' Argentino. Das quintas-feiras que o Sebastian traz pizza para a nossa alegria. Dos inúmeros planos de ir à Bolívia, Chile, Uruguai. Dos micos por não saber espanhol. Das festas. Dos bares. Da vida noturna platense. De mi Buenos Aires querida, tão do ladinho. De tantas coisas! De repente, o projeto 8 semanas virou 4.




Essa semana, para colocar em prática o projeto, fomos a Punta Lara. Fica perto de La Plata. Para ir, é só tomar um coletivo que custa 1 real (?!?!). O lugar dá paz. É um rio que parece mar. Com vários pescadores. Definitivamente, um lugar que quero voltar ainda essa semana só pra sentir 'a paz de estar em par com Deus'. Para quem está em La Plata, ou quer vir a La Plata ou só ficou curioso em ter a informação caso um dia necessite: o ônibus para Punta Lara se pega na Plaza San Martin, e o número é 275. Demora quase uma hora. Então, saia mais cedo.







quarta-feira, 16 de maio de 2012

outono em 15 atos

I


quando o caos precipita
e o escuro encobre meu vestido de sol
o inesperado surge à ponta:
e meu destino, retraçado,
esboça cores jamais imaginadas.

II


nas profundezas de mim
sinto os sinais de outono.
e sinto medo.

com o sol rente a cabeça.

III


a vida segue, lentamente,
seu movimento indecifrável
de coisa avassaladora.
das utopias do dia, eu quero a noite.

das dinastias, o sentimento
é de maior nobreza.

que no poço
vil

no fim do caos

você possa, enfim,
amar.

IV


dentro dessas recém-amarguras
que fundem o peito
faço orações que me vem acalmar.

quando penso descobrir
um novo caminho de outono
me deparo, sem mais

com novo desalento.

V


na vida como na dança
cada passo em falso
exige improvisação.

tira da cartola o sorriso
e busca na paz que não tem
a que procura.

sem o riso aflito, na imensidão das horas
um minuto gira torto
e a felicidade é num instante.

VI


nessa vida, que muito do tempo
engana
tem nas coisas um ruído estranho -
nem sempre o que se pede
é o que se tem.

sem maldade por dentro
nas tramas do coração vivo
a ingenuidade é tecida
à mão.

VII


desfaz esse vento que,
aí dentro, tem morada.
se arrisque nesses abismos
sentimentos tortos
inventados
sem data marcada.
e, se desvario acontecer,
procure nas minhas palavras soltas
a lamparina na noite escura.

VIII


na tua fala mansa
que eu penso escutar
me avesso no cantar
das coisas,

como um grito distante
como o piano
o timbre

a luz, ao fundo.

nesse onírico encanto
olhei para janela
sem esperar primavera chegar.

IX


a arte de confundir as coisas
me abre o peito
e treme o corpo.

nada melhor para a saúde
que um amor inventado.

X


na perfeita sintonia
dos pares errantes
das vozes distantes
nesses desconexos passos
de que um chega
e outro já vai.

XI


queria fazer poesia
para você sorrir e pensar
'nesse seu pranto torto
sem querer
encontrei meu lar'.

XII


quando apareceu na minha vida
era dia de outono.
no tempo e na vida.
apegada que sou nas coisas que tenho,
mal percebi que era para sempre.

desconversei

na minha noite de tempestade,
percebi o que acontecia.

da possessão ao sentimento,
três corpos desconexos.

eu gostava do estrago.

XIII


quando te digo mundo
nessa vastidão de sentido
de palavra

a resposta é sempre
contrária do que
pergunto nas entrelinhas.

XIV


dentro do infito cristalino
da alma e o corpo que habita
ele carrega seus demônios acorrentados
que rogam pragas como se cuspissem fogo.
e, na ingratidão intrinseca de parasitas
encerram o homem e sua prória imensidão.

XV


nesses seus sonhos
de menino desesperado
só vejo a busca incessante
pelo amor.

das tristezas da vida,
só a solidão te faz definhar.
como a vela que queima
e, no pouco que resta de luz,
se desfaz em branco líquido.

não, não se afaste assim.
no seu desconhecimento
da vida

eu, perdida,
quero, enfim

ter meu lar.



















segunda-feira, 7 de maio de 2012

relatos de uma viagem - república de los niños

Nesse final de semana conheci a famosa República dos Niños. Apesar do nome, a gente vê muito mais jovem que criança por lá. É uma ótima programação, independente da idade.  "Reproduce en un tamaño proporcional para los niños, una ciudad con todas sus instituciones: parlamento, casa de gobierno, palacio de justicia, iglesia, puerto, teatro, aeropuerto, restaurantes, hoteles, etc." A entrada no parque tem o valor de $10. Mas para usufruir de alguns outros passeios dentro do parque tem que se pagar mais alguma coisa (como para andar de canoa, entrar numa espécie de estábulo, brincar no parque de diversões). Segundo o site oficial, a Disney foi inspirada nessa República criada por Juan Perón e Eva Perón.  "Considerado el mayor emprendimiento infantil de Latinoamérica y primer parque temático de América, la República de los Niños fue fundada con un doble propósito: el de esparcimiento creativo en un mundo de sueños y cuentos ligados a la infancia y el de aprender a ejercer los derechos y obligaciones que en todo país democrático poseen los ciudadanos. Por aquellos años, Walt Disney visitó el lugar y sorprendido por tanta belleza se inspiró para construir más tarde Disneylandia, en la ciudad de Anaheim, California."

Não sei muito bem o que falar sobre o lugar...é mais pra ir e desfrutar! Passear com os amigos, com a família. Vi algumas pessoa fazendo caminhada por lá também. Acredito que as fotos vão passar toda a vontade e delicadeza do lugar. Ah, o parque fica em La Plata mesmo.


 o nome de praça mais popular da Argentina


Aí dentro funciona um museu de bonecos






 Bia gracinha




Momento Jade

 
nessas tentativas tortas de elevação espiritual





RISOS


o que mais falta


foi lindo! infelizmente, tenho uma grande queda por parque de diversões





domingo, 29 de abril de 2012

contesta

Escrever é algo que sempre me salva. Sem parafrasear Lispector de maneira desleal. Não é que salva, mas ameniza. E tudo o que eu preciso é rezar. Poesia em forma de oração, ou o contrário? A poesia me livra da miséria humana e suas doenças. Protege minha alma frágil que, de tanto quebrar, acredito que tenha se tornado forte. Nessas desventuras de corpo e coração, eu quero o doce da paz. Da paz em si, sem esperar que ela venha em forma de homem algum. Porque a paz, quando nossa, ninguém tira. É como amuleto consagrado dentro da gente. Eu, estúpida de nascença, desconheço as diretrizes de uma vida calma. Na minha lentidão, só demonstro a minha vontade de ser. Até hoje busco a contesta das palavras que grito ao universo: em quantas partes uma alma pode se fragmentar e continuar inteira?

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Caminito!

Apesar de todo o medo sobre La Boca, El Caminito...não senti nenhuma vibração "saia correndo! assalto a vista". Me encantei absurdamente com o local. Tudo bem que não dá pra dar mole e ficar andando por lá de bobeira no começo da noite. Reza a lenda que até argentinos são assaltados por lá.
Fomos de trem de La Plata para Buenos Aires e pegamos um ônibus direto, que parava bem no Caminito. Acho que era o ônibus de número 53. Aliás, ônibus em Buenos Aires é bem barato, $1,25.
Como todo lugar turístico, parece que está estampado na nossa cabeça "oportunidade de ganhar dinheiro". Quando estava tirando foto de um bar, a tangueira olhou para mim e começou "quiere sacar una foto? viene acá!". Eu virei para os meus amigos e falei "vamos dar meia volta porque aposto que ela vai querer cobrar". E lá é bem assim mesmo. Escapamos dessa, mas outros dois nos pegaram. Ficavam fazendo poses de tango com a gente. O moço até me pegar no colo pegou! Disse que me daria $50 se ele me derrubasse (porque eu tava morrendo de medo disso acontecer). Enfim, eles pediram uma contribuição, a gente deu e a moça reclamou da quantia haha Eu fui bem clara "você não avisou que tinha que pagar". Quando a gente fala que é do Brasil todos pensam que somos ricos. Tadinhos! Sinceramente, acho praticamente TUDO aqui mais caro. Talvez para quem seja de São Paulo e Rio seja de boa.
Não adianta, quando se vai turistar tem que passar por alguns micos clássicos! É divertido.

Já tô com saudade de todas aquelas cores.












segunda-feira, 23 de abril de 2012

bestial

com a fúria de um cão raivoso, me lanço pelas ruas
com minhas dez estrelas tatuadas no peito.
parto para cima, com minha mandinga
de contas de cores.
crio asas.

como um ser bestial no acaso.

domingo, 22 de abril de 2012

Cola o meu retrato no teu e me namora?

Ele deixou seus afazeres de lado e correu. Correu como se treinasse maratona à anos, como se seu sedentarismo crônico e procrastinador nunca tivesse existido. Correu sem pensar em cifras e orgulho, sem lembrar das palavras ríspidas. Assim como a flor, ela deveria ser julgada pelas suas atitudes, e não por suas palavras. Ele correu. Esqueceu o mau humor, a febre, a cólera. Pegou três ônibus. Se esqueceu das bactérias, dos suores, dos nojos, da multidão. Não havia mais passagem. Contou à vendedora nossa história triste, a pausa dramática. Anunciou nos auto-falantes, questionou com a polícia, subornou o piloto (quando se trata do coração, todo jeitinho brasileiro é válido, sem pecado do lado de baixo do equador). Repousou. Escutou uma canção triste seguida de uma feliz - ela estaria lá. A saudade que transforma horas em anos. Essa palavra que só existe na língua de lá. Ele chegou. Pegou mais dois ônibus. Como o coletivo 214 não passava, como de costume, e na pressa de achar, resolveu saltar em frente à um táxi: "59 entre 23 y 24" falando um espanhol caduco. O taxista quis saber da sua história, o porquê de tanta pressa, "esse é o mal dos turistas". Ele, falando de amor. O taxista questionando sobre futebol. - olha só a enquete de hoje 'qual o melhor jogador da América: Neymar ou Ronaldinho?'. o melhor é o Messi. Ele, na ânsia de abraçar, desistiu de falar que o Messi jogava na Europa. 1424, é aqui. Toca o timbre, ninguém atende. Toca o timbre novamente. As sete da manhã. Uma figura sonolenta aparece cambaleando até a porta de vidro. Era ela, tinha que ser.
Pausa silenciosa.
O coração como um maracatu. O coração na boca. O coração que, lentamente, se acalma.

- Cola o meu retrato no teu e me namora?





- Sim.