sábado, 21 de abril de 2012

sobre a poesia

a poesia não resolve a vida
não sossega a alma.

ela corrompe.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Relatos de uma viagem - San Telmo

San Telmo é um bairro antigo de Buenos Aires com a sua famosa feira de antiguidades e vários restaurantes. Um desses restaurantes se chama La Brigada. Nunca fui, mas li que lá os garçons cortam a carne com colher de tão macia que ela é.

Esse passeio foi a minha primeira ida à Buenos Aires, e sozinha. Fui de trem de La Plata para lá, já que o trem é bem baratinho ($2,10). Diga-se de passagem: luxo ZERO. Como é a forma mais barata de se chegar à capital, o trem é cheio de gente e meio sujo. Aparecem vendedores de inúmeras coisas o tempo todo, como vendedor de faca, de alfajor, de empanadas, de milanesas, de cd's (com direito à um aparelho de som para você confirmar a qualidade do produto!) e até meia (comprei umas ótimas! 3 meias por $10).  Dentro do trem você realmente se sente fazendo intercâmbio, observando as disparidades sociais e culturais de um país tão grande.

Cheguei à Estación Constituición e pedi informações sobre como chegar à Feria de Antiguidades de San Telmo. Andei seis quadras seguindo a Avenida Brasil e perdi informação de novo. Qualquer dúvida é só recorrer ao google maps antes ( http://maps.google.com.br/maps?q=google%20maps&um=1&hl=pt-BR&biw=1366&bih=643&ie=UTF-8&sa=N&tab=il).

A feira é MUITO grande. Fiquei acabada. Sinceramente, espera mais. Não que eu não tenha gostado. Mas é que as pessoas sempre me falavam taaanto dessa feira que eu acabava por imaginar algo fora do comum. Mas é bem legal e vale a pena conferir. Tem telefones, máquinas fotográficas, vinis, bolsas, garrafas, roupas, colares, fotos e mais um tanto de coisa antigas. Tem pessoa dançando tango na rua e a língua, quase que oficial, é o português. SIM! Parecia até território brasileiro. A feira também segue vendendo bugigangas novas como alpargatas, blusas, lenços, um suco de laranja maravilhoso. A feira termina praticamente na Plaza de Mayo, onde "as mães e as avós de Maio" fazem suas manifestações por seus filhos e netos desaparecidos na Ditadura. A feira também conta com artistas de rua.














segunda-feira, 16 de abril de 2012

retrato

Eu, que abro meu coração de tempos em tempos, fui obrigada a me curvar, como se a maior das dores se abatesse sob meu corpo cheio e, ao mesmo tempo, frágil. Depois que se transcreve a alma em um lençol branco, jamais usado, a gente acaba por se sentir roubada. Como se publicassem as informações mais íntimas em um jornal barato. Transgredida. Violada. Algumas vezes acho que recuperar alma é tentativa sem retorno. Que o coração, uma vez partido, não se cola as partes. Que um porre e férias, são só desculpinhas de quem não conhece Caio Fernando Abreu. Algumas vezes também acredito que o amor é sempre possível e que o coração se renova para as desventuras seguintes. E por que não um felizes para sempre? Mas quando a idade com suas palmas calejadas dá leves tapinhas nas costas, eu me sinto como uma criança sonhando com o que não se pode ter. E talvez seja bem essa a verdade. Quando a gente sonha, não mede as distâncias que aproximam ou afastam o que se quer. O problema de ser calejada pela vida: a racionalização dos sonhos. De repente, me tornei adulta. Parafraseando Cecília Meireles, só que de uma maneira contrária, em que espelho ficou perdida a minha infância?


Retrato - Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?




domingo, 15 de abril de 2012

sintonia

sintonia é algo que não se mede ou conquista,
tem-se.
e quando achada, é como borboleta rara.
dos amigos, é como aconchego,
calmaria,
navio parado no cais.

das conversas,
a imensidão de horas.
as palavras exatas
no desassossego do espírito.

é encontro às escuras,
peixe assado
e horóscopo na madrugada.

poesia para o meu menino recuperar sua alma


procure nos lugares que passou
e, sobretudo, onde está
procure por entre papéis esquecidos na mesa
pequenas cartas de amor.

procure nos vãos das portas
nos corredores
nos arranha-céus
nas árvores floridas de primavera
no chão sépia e fatal do outono.

procure nas roupas usadas
naquele xadrez já desbotado.
procure nos seus antigos projetos
livros empoeirados.

procure naquela praça
naquele encontro de destino
naquela dança feliz
de música triste.

procure nos abraços que não deu
nos beijos que não esqueceu
no que há por vir
e ainda existe tempo:

dentro do tempo perdido
destroçado
recortado de lembranças

mas, acima de tudo,
dentro do tempo que é nosso

e de ninguém mais.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

A respeito, com despeito.

Engole a saliva. Respira. Rabisca algumas palavras desconexas no papel. Começa uma oração pedindo à Deus que o ajude a aceitar. Interrompe. Não sabe se está pronto para tal realização de prece. Desmitifica o passado. Passa à limpo. Pensa nas tolices que cometeu ao acreditar. Perde o foco. Pensa na felicidade das pequenas coisas, o abraço no momento preciso. As palavras de afeto. Afeição. Ainda têm. Engole a saliva novamente. Relembra as várias fantasias folhetinescas de cinco minutos atrás. As boas e as más. Desordena-se na lógica do seu coração. Os manuais, tão práticos, não resolveriam aquele caso. As horas de terapia, tão pouco. Afinal, tinha vergonha de expor seus desajustes emocionais acompanhados de soluços esparsos diante daquela figura independente, de frente ao divã.

Como uma entidade sádica, nem ao menos levou a escova de dentes. Ou o anel. Todo relicário era dele. Como se deixasse as lembranças afim de evitar futuras assombrações. Brilho eterno de uma mente sem lembranças, lembrou no momento. Talvez volte. Melhor pensar que não.

Não rompeu o silêncio. Como uma caixa que não se deve abrir, assim permaneceu. A passagem das horas jamais fizera efeito reverso naquele coração impassível e fechado. O dele. Que com seu sentimentalismo da lírica e dos olhos, escondia muros, figuras submersas. Talvez eu não seja tão aberto assim, falou em voz alta.

Os amigos, na tentativa de ajudar, pouco entendiam. Talvez algumas racionalizações de sentimentos. Mas, de fato, qualquer apoio já era o mundo inteiro. Na contradição do que se sente, a dúvida latente.

Nas entrelinhas do que supõe saber, prefere esquecer em um canto, debaixo do tapete - como aquela semana em que receberia visitas. Por bem ou mal, jamais falaria a respeito. Com despeito, encerraria a noite sozinho. Mais uma das que viriam, inevitavelmente. Sem jeito ou vontade, guardou a escova e o anel em uma caixa verde no armário. Por tempo indeterminado.

terça-feira, 10 de abril de 2012

sin

No quiero la mala suerte
de los destinados a la espera sin fecha
sin nada
sin nadie.

Yo quiero antes lo que se fue
un sueño

un aguero de primavera.

Quiero el regalo de una vida entera
la esperar.