sábado, 29 de dezembro de 2012

cantarolices


Sentado no banco, fenecia e pensava: talvez lhe restasse algo escondido entre as gavetas do quarto, entre os buracos da parede, entre tantos sins e nãos em meio a um mísero talvez. 

Talvez. Naquela altura do sol e os dias acumulados em folhas de calendário e memórias, já não sabia se procurava ou conformava. Entretanto, as possibilidades não escapavam ao seu cérebro ainda ativo e cada linha que desenhava à caneta gerava mais perguntas do que saciava a vontade de escrever. Devia ser sina, dom, passatempo transformado em habitus.

Aquele anjo do Natal não fez a visita. Não o fez rever passado presente futuro, nem desvendar o mistério do planeta. Não o fez mudar, perdoar e mais uma quantidade de verbos decorrentes desse encontro repentino com a vida, em suas variadas perspectivas. Porque para mudar de rumo, precisava ao menos de uma ajuda. Vê-se que não era ateu.

Desapontado, resolveu ele mesmo fazer sua retrospectiva. Pegou na estante caixas de fotos e cartas, papel de cartas, contas, recibos, fitas, negativos. Examinou cada um como fonte primária da sua pesquisa sobre ele mesmo. Buscava o mal secreto.

Depois de muito pensar, re-sentir, repassar cenas já vividas – outras, inventadas –, com os olhos baixos, disse:

- “Eu nem lembro mais quem me deixou assim”.

E nenhuma lágrima daqueles olhos caiu.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

vez em hora
quando des-ritma o coração
naquele compasso
assim, sem traço
afago e voz
e ilusão.

bem vale mais enquanto dura
enquanto cabe
(ternura)

pelas esquinas,
desvãos.


qualquer meu canto torto
quando desenrola
poesia
uma suspeita, espreita -
vem tempestade por aí.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Com mate e afeto.

Eu poderia falar muitas coisas sobre fazer intercâmbio. Para agradar aos pais e familiares, assim como à instituição de ensino que me proporcionou (burocraticamente, que fique bem claro) fazer a chamada "mobilidade acadêmica", poderia falar sobre o capital cultural de Bourdie. Fazer uma análise sociológica dos cinco meses em contato com uma cultura diferente, bem como o mapeamento das minhas impressões e incorporações dos custumes alheios. Assim, falar dos aspectos da alteridade e coisa e tal.
Mas eu resolvi optar por outro caminho. Fazer intercâmbio, por mais que você pense, leia, imagine, será uma experiência totalmente diferente. Tá, pode parecer clichê falar assim porque toda experiência é diferente, mesmo quando é parecida (tem aquele ditado que as águas de um mesmo rio jamais serão as mesmas. os amantes da filosofia que me perdoem, mas estou com preguiça de procurar a citação. até porque, como já disse, optei por outro caminho: o do coração).

Apreendi olhando, andando, observando, conversando e enchendo linhas de gerundismos que me definem. Fazendo poesia, chorando de pijama no chuveiro, viajando sem dinheiro. Brigando no ônibus, me aventurando pela madrugada. Recebendo afeto e atenção de pessoas antes desconhecidas, talvez indiferentes. Praticando tarô e aprendendo a retrucar (porque não dá pra ser boazinha a vida toda).

Santo, um amigo venezuelano que conheci no meu primeiro dia de La Plata, marca  em uma nota no facebook as pessoas que ele conhece nesse mundão sebastião. nessa tal nota tem os seguintes dizeres:


"Salimos una vez de casa con un salvaje deseo de paralizar el tiempo, el tiempo paso y el reloj apretó el acelerador hasta el fondo, en esta tierra de extraños confeccionamos un lenguaje sin puntos ni comas pero con millones de signos interrogativos, en esta nueva lengua usamos muchas muletillas a las que la gente normal suele llamar abrazos y besos. Aprendimos a enamorarnos de lo ajeno y despreciar lo nuestro para luego empezar a dar la vida por lo que nos identifica.

Queridos hermanos somos la tribu de los de afuera, y ahora más que nunca cuando pasan los días y se nos acaba el tiempo nos aferramos a esta realidad con cierto sabor a cuento de hadas, no todos pudimos sentir igual en el paladar la desesperada textura del viento que aquí nos tragamos. Unos con más amargura y otros con más pena pero siempre excitante. Millones de versos me tomaría describirlos y no quiero hacer eso porque ya mis ojos cerrados saben retratarlos en mi memoria.

Queridos extraños que a bien supieron llegar a mi vida quería dedicarles alguna canción y es la que hacía el sonido de nuestras risas cuando embriagados de euforia nos recibía el día. Tan separados que fuimos que parecíamos un hilo entre esas charlas de recién recibida la mañana nos empeñábamos en hacer.

En estas mañanas me desperté pensando que inocentes fuimos al dejar correr los segundos, esos que se murieron sin recibir ni dar un abrazo, además fui sorprendido entre el resplandor de vernos enamorados de nosotros mismos, nunca antes vi algo así lo juro.

Había una vez unos desconocidos desenfrenados que querían llegar a algún lugar y llegaron a este. Hoy cuando ya muchos se fueron queda el amargo vino de un cuento de dios que rezaba “había una vez unos extraños que salieron de casa para detener el tiempo y solo se les detuvo el corazón cuando al regresar a ella dijeron adiós”.


Frases, expressões e afins que marcaram esses 5 meses:

- eu quero ser rica, eu quero ser rica, só fumar do bom e estourar na larica.

- y hoy voy hacerte olvidar, el pelo te soltaré. hare una historia con tu cuerpo (te necesito!) en tu mente plasmaré.




- cuanto sale?

- ai, acho tendência. me sinto fazendo intercâmbio.

- cara, eu vou pra Bolívia.

- quando eu te vi fechar a porta eu pensei em me atirar pela janela do oitavo andar, onde a dona maria mora, porque ela me adora e eu sempre posso entrar. era bem o tempo de você chegar no T, olhar no espelho o seu cabelo e falar com o seu zé. e me ver caindo em cima de você como uma bigorna cai em cima de um cartoon qualquer...


- pode avisar que eu não vou, ô ô ô ô, eu tôô na estrada. eu nunca sei da hora, eu nunca sei de nada.





- como escreve almohada?

- procura no google.

- me dá um cigarro, tuco?

- ralla feia do mal.

- para acalmar minhas crises de pânico


- já assistiu medianeras?

- bárbara, viver com você pode ser devastador na vida de uma pessoa.


6 meses em 6 fotos: (será que isso é possível?)


1.Fevereiro


Primeiro dia na casa nova, comendo tarta!


2.Março



Paulinha entrando na minha vida para sempre amém. Trâmites do visto e a Casa Rosada ao fundo.

3.Abril


Sebastian negando un besito en Caminito.

4.Maio



O que há de divino em mim saúda o que há de divino em você - Republica de los niños.

5.Junho


Congela o tempo pr'eu ficar devagarinho - Punta Lara.

6.Julho


Colônia del Sacramento.



Que fique bem claro como é difícil e injusto resumir meses em 6 fotos. Faltou tanta coisa, tanta paisagem, tanta gente!

Por fim, gostaria de agradecer profundamente aos meus queridos, da Calle 59 entre 23 y 24. Ana María entró en mi casa para hacer la visita legal, pero nosotros quedamos borrachos y ana María se sentió muy mal.

Los extraño, hecho de menos. Saudade.


Ps. Arthur, você me pediu um post motivador sobre a volta. Sabe, acho que não sei escrever sobre isso. Talvez porque nem precise disso. É questão de tempo e assimilação. A gente cresce por dentro, muda algumas velhas opiniões formadas sobre tudo (sobre o que é o amor, sobre o que eu nem sei quem sou), e etecéteras. Cada parte da vida tem seu lado, cabe a gente desfrutar.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Na esquizofrenia do seu dia, tudo estava intacto.

Em um dia normal, desses de calor e passarinhos voando alegremente como se não tivessem mais nada a fazer, ele, como sempre, acendeu seu cigarro. Com o olhar vago, repassou todos os seus afazeres: cigarro, café, café, cigarro, jornal, andar, praça, cigarro, cigarro, cigarro, café, cigarro, cigarro, cigarr, cigar, ciga, cig...É, a agenda estava completa. Não teria espaço para visitar sua família ou os amigos que havia perdido ao longo dos anos. Tornara-se um velho rabugento, dando-se conta do buraco em que estava caindo.
 
Para alguns, cair gradativamente, é um dos maiores prazeres. Para outros, uma desculpa para tomar Prozac. Para ele, acho que uma mistura dos dois - embora tenha parado com o Prozac devido à um impulso natural no qual, também, eliminou as carnes das suas principais refeições, levando-o, posteriormente, a não fazer praticamente nenhuma.
 
Depois dos primeiros cigarros e das xícaras de café, foi comprar o jornal em uma banca há três quadras da sua casa. Seu sedentarismo acumulado com os anos não permitia andar muito mais que aquilo. Ao lado, havia uma praça semi abandonada e, na outra ponta, uma padaria mequetrefe, na qual, após ler o jornal, iria para tomar um café morno e doce - talvez mais doce por não estar na temperatura adequada.
 
Sua cabeça manipulava as experiências do presente. A padaria do seu Jair era transformada por ele em um café portenho, onde poderia tomar um expresso e comer facturas deliciosas. Sua casa, de paredes descascadas, inúmeras goteiras nos períodos de chuva, bordas mofadas, era como o sonho de um esteta. Dedicado aos gostos refinados e à arte, não poderia ser diferente.
 
Na esquizofrenia do seu seu dia, tudo estava intacto. Exceto as ruinas do seu passado.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Quem sabe um dia, por descuido ou poesia.

Seu moleskine continha páginas inteiras rabiscadas com versos e tentativas de romance crônicas matinais contos: só que sem fim. A própria finalidade de um moleskine, e não de um caderno qualquer era tentativa de inspiração. Uma vez, lera no jornal, que essa era a opção de papel de desenhistas e escritores, devido a facilidade de uso e a fita que, embutida, marcava as páginas. Na prática percebeu que a inspiração não advém do meio.
 
Sentado em frente ao rio Sena - ou deveria ser o Sapucaí? - repassou mentalmente (e em algum momentos fazendo pequenas aberturas labiais de uma forma tão discreta que nem precisaria ser surdo mudo para compreender) todos os desaforos que escutou quando Noele saía de seu apartamento. De fracassado somado a ruim de cama. Acredito que para ferir a virilidade de um homem, não seria necessário mais nada. Mas, como esse relato se trata de um moleque, esses dizeres não foram tão avassaladores assim. Chorou lamentos piegas em algumas páginas e foi possuído por uma quase-coragem: Vou tentar uma última vez.
 
No saco de papel pardo, onde o velho do bar havia empacotado cigarros de sabor (ele, como um bom moleque, sustentava seu vício de pseudo artista apenas com aromas. o cheiro da nicotina misturada a 3.000 substâncias químicas lhe dava crise de pânico) resolveu escrever uma obra-prima para deixar Noele fragilizada e, quem sabe, fragilizada a ponto de dizer que tudo aquilo era mentira.
 
Entretanto, se aproveitando de que a menina não gostava de Chico Buarque, mas de sertanejos universitários, resolveu plagiar.
 
Mas fica, meu amor.
Quem sabe um dia
Por descuido ou poesia
Você goste de ficar.
 
E, é lógico, ela ficou.
 
 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Quem conta um conto aumenta um ponto e multiplica a vírgula.


Quem conta um conto aumenta um ponto.
Quem conta um ponto aumenta o conto.
 
E se eu não quiser dar continuidade a essa balela toda, como faz? Só o fato de eu me explicar, me contradizer, me abster, ficar calada - porque até mesmo o silêncio liberta pequenas palavras - já é uma desculpa para esse papel em branco se encher de pequenas formigas que vão, sorrateiramente, rabiscando, amontoando uma fileira de filhas. Se não se aumenta lá muitos pontos, as vírgulas estão garantidas.