quinta-feira, 11 de setembro de 2014

para atravessar as frestas

a canção de fundo martelava na cabeça para ver se invadia a alma: sol de primavera abre as janelas do meu peito. e repetia, ininterrupta(-na-)mente. 
mentia sobre suas disposições sobre a vida: o que queria dela e o que ela, a vida, parecia querer em troca. um escambo de intenções, privilégios, virtudes, moral, vícios, rancores, sessões de angustia comedidas. quase uma conversa inquietante em oficina de diabretes. mas a vida não é dessas coisas. 
fiquemos com a conversa inquietante.

seu dia seguia na intranquilidade dos aflitos. olhava atordoado pelos cantos e quinas que frequentava. parecia não haver solução para o seu grande pequeno problema. gripe, vírus, dores nas costas - todas elas indiferentes e ínfimas em relação ao que lhe acontecia. a fome, as guerras civis, epidemias - tampouco. 
seu olhar era direcionado pelo tamanho da sua generosidade: para baixo, não passava do umbigo; para cima, não ultrapassava o limite de seus olhos no espelho.
todavia, não iremos fazer aqui crítica de juízo. um pobre coitado, penso eu.
voltemos. 

a despeito de seus caricatos defeitos, setembro fazia desabrochar um cadinho de ternura. e é por isso que ele cantava, para internalizar de fora pra dentro; para o sol atravessar suas frestas e atingir seu coração gélido e imóvel.

domingo, 27 de outubro de 2013

A poética na/da rua ou Os escritos das passagens.

Na influência do meu antigo
sempre quando é nunca
porque o passado não traz.

Estava inscrito num banco de uma das passagens. Lamentou não ter caneta para anotar. Assim, na falta, utilizou-se de seu sistema memorialístico capenga mediante todas as extensões: caneta, papel, gravador. Quem haveria escrito, questionou. E, mais: por quê? Lembrou-se da Regina cantando Belchior em um dos passeios de bicicleta. Era inevitável: os antigos sabiam das coisas. Seja roupa que não sirva, seja o que não se traz. O passado evoca, cá dentro. E se ressentir é re-sentir e, portanto, sentir de novo, nada se iguala à possibilidade (inexistente) de se ter efetivamente, de agir sobre mais uma vez. E, se tivesse, assim o seria? Melhor - faria?

Caminhou por outras passagens buscando registrar qualquer mínima inscrição. Intitularia: a poética na rua. Talvez das ruas, ou o escrito das passagens. Deixou para se ater no supérfluo depois (qualquer coisa seria segundo plano ou quase-sem-importância tendo como corpo as transgressões do tempo na vida, ou da vida transgredida no tempo)

Parou para descansar em um café com bandeiras de inúmeros países. Com lamento - mas um fundo de felicidade clandestina - pensou que nem todos, os vários de vários [países], poderiam traduzir as inscrições e, caso pudessem, talvez não o fariam de modo a compreender sua complexidade. Pediu o de costume e observou a vidraça, esperando o mais um dos tantos que encontrava e se envolvia e enjoava.

sábado, 5 de outubro de 2013

Ser é clandestino

Ser é clandestino, pensou. Depois chegou a conclusão que essa frase não poderia ser sua, devo ter ouvido em algum lugar. Tirou a água da chaleira e continuou seu ritual cotidiano. Mas a afirmativa, fosse sua ou de algum autor desconhecido, famoso que fosse, permanecia como um incessante martelar.

sábado, 31 de agosto de 2013

A caixa dos esquecimentos

Agosto

            Agosto sempre fora o mês do desassossego. Ele atravessava a vida das pessoas com um descomedido peso, embora aparentasse leve brisa. Era possível sentir que, no fundo, todos ansiavam as boas novas floridas de setembro. Em Sempre-viva, o cheiro de terra era forte e o pó da estrada se levantava facilmente com o trânsito dos carros. Era domingo, o dia anunciava e ardia, nos pequenos detalhes, que algo grande iria acontecer. Valentina passeava pela cidade ansiosa pelo encontro que teria com Vitório. Ele demorava a chegar mas ela - na tentativa de consolo e fomento de esperança - falava repetidamente que era o ônibus, só podia ser; ele deve ter quebrado na estrada, essas coisas acontecem. Durante a tarde, o sol, que até então ardia de terra, foi se desvanecendo e dando lugar às nuvens carregas de um azul acinzentado, que tomava conta do amplo céu. A distância de Ypês à cidade de Sempre-viva era apenas de 47 minutos – Valentina havia contado certa vez que foi encontrar Vitório na rodoviária. Já haviam se passado três horas desde o momento que Vitório deveria ter saído de Ypês. As nuvens carregadas de azul continuavam a ocupar o céu. O vento invadiu a cidade, balançando fortemente todas as árvores da grande avenida. Valentina olhava todo esse espetáculo da natureza com medo e excitação – era essa a sua reação em meio a tempestades e à ruas desertas e escuras. As folhas caíam das árvores, girando em uma violenta espiral até que pequenas pedras de gelo começaram a cair. Elas partiam-se em dois, três pequenos pedaços ao irem de encontro ao chão de paralelepípedos. Valentina se escondeu em uma pequena garagem que estava aberta. Ela era pintada de um laranja desbotado, com alguns sinais de infiltração em um dos cantos superiores. Havia, também, algumas teias de aranha tecidas com o maior dos zelos. As pedras começaram a cair mais e mais, e faziam grande estardalhaço naquela tarde vazia de agosto. De repente, toda excitação foi convertida em medo, apenas. Um medo que parecia preencher aquela garagem laranja, e até mesmo aquela enorme avenida. Ele não viria, ela pressentia. Não viria. Valentina havia sonhado com essa possibilidade três noites seguidas. No primeiro sonho, eles estavam em uma sala completamente branca, que possuía como móveis apenas um sofá de três lugares, igualmente branco. Valentina falava com Vitório, entretanto, ele parecia não escutar. Ela, na tentativa de verter a atenção dele para o que ela dizia, foi com suas mãos lívidas e frias até o rosto dele, de maneira que cada palma da mão atingisse as faces do homem que estava imóvel a sua frente. Todavia, ela foi surpreendida com a impossibilidade de concretizar sua ação: era como se Vitório estivesse envolto por uma caixa de vidro. Acordou para a realidade com seus próprios gritos produzidos no outro mundo. O segundo sonho foi um tanto cruel, também. Valentina subia as escadas que davam no apartamento de Vitório. Ela estava eufórica para contar a ele as novidades do seu dia: havia ganhado duas passagens para o sul do país, e queria levá-lo como acompanhante. Já havia planejado mentalmente toda a viagem, traçado inúmeros roteiros que agradassem a ambos. Quando chegou à porta, percebeu que ela estava apenas encostada. Ao entrar no apartamento viu que ele estava completamente vazio. Havia apenas, no chão da sala, um bilhete que dizia assim fui embora por não te amar. No terceiro sonho, ela estava em seu quarto vendo um álbum de fotografias. Ele era de um verde musgo, com as pontas desgastadas, mostrando o bege do material que o compunha. Valentina notou que o álbum, até então completo, estava com alguns espaços vazios. Procurou uma foto dos dois, para colocar no porta-retrato que havia comprado, mas já não havia foto alguma. Sentada em um canto da garagem, recordou-se dos sonhos e começou a chorar.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O mais do mesmo: apreensão sobre as manifestações contra as tarifas de ônibus.

A minha cabeça está fervilhando de pensamentos, o corpo afetado. São tantas as imagens e as palavras sobre as manifestações contra o aumento das tarifas de ônibus. E que ao mesmo tempo não é apenas contra o aumento da tarifa: é algo bem maior. É uma expressão da insatisfação como um todo: transporte público, educação, saúde, lazer sucateados e caros (caso você queira um serviço de qualidade - que muitas vezes é até questionável. digo, a qualidade dos serviços caros). Pouco entendo de política, economia, história (sim, história). Como diz Adélia Prado: "Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina". E aqui estou.

Essa semana li em um blog/jornal chamado A Folha do Gragoatá uma postagem com a diva absoluta Laura de Mello e Souza respondendo ao questionamento: Por que estudar História? (aliás, foi divulgado nas redes sociais essa semana que esse curso está entre os menos promissores. jura?). Vou colocar aqui alguns trechos nos quais a historiadora tenta responder ou, ao menos, refletir sobre.

"Mas a História é, tenho certeza disso, uma forma de conhecimento essencial para o entendimento de tudo quanto diz respeito ao que somos, aos homens. Os humanistas do renascimento diziam que tudo o que era humano lhes interessava. A História é a essência de um conhecimento secularizado, toda reflexão sobre o destino humano passa, de uma forma ou de outra, pela História. (...)

A História é fundamental para o pleno exercício da cidadania. Se conhecermos nosso passado, remoto e recente, teremos melhores condições de refletir sobre nosso destino coletivo e de tomar decisões. Quando dizemos que tal povo não tem memória – dizemos isso frequentemente de nós mesmos, brasileiros – estamos, a meu ver, querendo dizer que não nos lembramos da nossa história, do que aconteceu, por que aconteceu, e daí escolhermos nossos representantes de modo um tanto irrefletido (...)

Não acho que se toda a humanidade fosse alimentada desde o berço com doses maciças de conhecimento histórico o mundo poderia estar muito melhor do que está. Mas a falta do conhecimento histórico é, a meu ver, uma limitação grave e, no limite, desumanizadora. (...)

Portanto, volto ao início, à diversão, e acrescento: o conhecimento histórico humaniza no sentido mais amplo, porque ajuda a enxergar os outros homens, a enfrentar a própria condição humana.●"



Pensando no por quê de se estudar história juntamente com os inúmeros comentários e imagens sobre a legitimidade ou não das manifestações, penso que aquela antiga frase permanece verdadeira: nenhum Governo quer um povo instruído, porque pensar é um instrumento poderoso. Quem quer sofrer desequilíbrio na sua zona de conforto ganhando bem enquanto tem gente passando fome ou comendo o pão que o diabo amassou (juro que não sei o que é pior), passando frio, sendo dizimadas, etc etc etc. 










Hoje, caminhando pelas ruas do Rio de Janeiro me deparei com uma exposição de fotos de Ouro Preto. Se chama, acredito, "Ouro Preto não postal", com imagens de um cotidiano pacato, repleto de poesia. Mas tinha um escrito no papel que me chamou a atenção. Não sei se a citação está certa, nem a referência. Dizia o seguinte:

Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem. - Rosa de Luxemburgo


Realmente. E deve ser por isso que tem muita gente falando merda. Essa bagunça toda por causa de 20 centavos? Vândalos prejudicam o trânsito? Ai ai.





Outra leitura que fiz e achei muito boa, tão boa que nem dá pra ficar separando trechos, se não vai variar plágio, é da Clara Averbuck

"Será que ainda tem como ignorar essa insatisfação?

Segundo, me recuso a achar isso normal e acabar vivendo essa situação cotidianamente até acreditar que só ela existe. Se toda semana um policial me tocar uma bomba na cabeça e eu achar isso normal, vou acabar acreditando que o problema são os policiais, feito muitos policiais acreditam que o problema sou eu. Mas não. Eu e esse cara que me intimida e agride (até por ter apoio do Estado para isso) temos mai$$ em comum que ele consegue lembrar. E eu não quero esquecer isso, só por não concordar com as posições dele. (...)

Porque não é normal violência e abuso policial em uma manifestação legal. Porque se ninguém se responsabiliza por nossa idoneidade física, nós temos que fazer."

Sei que não estou escrevendo nada que vocês (caso exista um grupo de leitores) já não tenham lido por aí. Mas é que me afetou de um tanto, e me encheu de orgulho de ser brasileira. E aos que possam vir criticar falando sobre o atentado ao patrimônio público, vou me apropriar da frase de uma pessoa X que li no Facebook: "se essa multidão de pessoas tivessem cometendo vandalismo, aí sim seria trágico". É tipico da mídia dar informação distorcida e compactar/marginalizar uma série de ações. Uma postagem do Eu me chamo Antônio de hoje foi genial:



Enfim: me deu o maior orgulho de ver essa galera toda nas ruas. De arrepiar. Mesmo que eu tenha só visto por vídeos, imagens dizeres. Tá, eu sei que é feio. Talvez eu não esteja no grau evolutivo dessas pessoas, mas fico feliz com a atitude e com a diferença. Toda manifestação já é uma perspectiva de mudança.





Ps. imagens Rio De Janeiro/São Paulo retiradas em páginas aleatórias do Facebook.

domingo, 12 de maio de 2013

O Rio de Janeiro, fevereiro e março.

Minhas impressões sobre o Rio de Janeiro me fazem lembrar a todo momento da poesia "Ruas" do Drummond. Já que hoje estou escrevendo com a luz, o poeta é que dará palavras às imagens.



Por que ruas tão largas? Por que ruas tão retas?


Meu passo torto
foi regulado pelos becos tortos
de onde venho.



Não sei andar na vastidão simétrica
implacável.


Cidade grande é isso?


Cidades são passagens sinuosas
de esconde-esconde




em que as casas aparecem-desaparecem
quando bem entendem


e todo mundo acha normal.


Aqui tudo é exposto


evidente


cintilante. Aqui


obrigam-me a nascer de novo,
desarmado.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

só a poesia salva?


me confisco entre os rastros
monstros da noite
caleidoscópica visão do ápice.
rasgo as palavras como rasgo panos
trapos
de indigestos
inflamados
antigos atos -
na ata da vida, somos todos
assinaturas tortuosas.

eu quero da luz
a visão de feixes

e recair
calada
deitada
na imensidão do seu colo escuro.

*


quando peço que venha
tanto quanto não peço
não vem.
não escuta meu pranto
não pensa na ânsia
não vê o excesso de lucidez.
re-leio os grandes
médios
pequenos
e o corpo não fala
não transmuta
não poesia.

*

Dentro de cada
qual seja o que ali
apita
Desavessa-te a face;
da carne pungente
se liquefaz.
Minha voz irrequieta
enquanto vinda de
cantos - Talvez pontes
Respira o vento
passadouro
dos verbos conjugados.